Olha aí a Marina fazendo o que o PSDB não faz por medo e o PT não faz por conveniência e uma alta dose de cinismo.

Da Agência Estado

Marina critica tucanos por não defenderem governo FHC

ELDER OGLIARI – Agência Estado

A candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, criticou a campanha do tucano José Serra por não defender aquilo que o PSDB conquistou quando esteve no governo. “Tenho a coragem de fazer aquilo que nem as lideranças do PSDB são capazes de fazer, que é dar o crédito da política econômica para o (ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso, mesmo ele não sendo assim tão popular”, disse ela, durante entrevista coletiva realizada hoje, em Porto Alegre, para reiterar que o reconhecimento é questão de justiça, de um novo jeito de fazer política.

A presidenciável do PV fez críticas, ainda, à campanha de Serra por usar imagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na propaganda de televisão. “Eu tenho admiração pelo presidente Lula, mas tenho a coragem inclusive de não ficar utilizando a imagem dele, os feitos dele de forma oportunista para a minha candidatura”, afirmou Marina, numa alfinetada ao PSDB, que mostrou Serra ao lado de Lula num dos primeiros programas da campanha para afirmar que os dois são líderes experientes.

Marina passou o dia em campanha no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre recebeu o apoio do deputado do parlamento europeu Daniel Cohn-Bendit, fez uma palestra para empresários na sede da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul (Federasul) e conheceu um programa do Ministério Público Estadual (MPE).

Em Canoas, na região metropolitana, a candidata do PV visitou uma Casa de Marina, oferecida por um casal simpatizante para debates e divulgação da campanha no bairro Estância Velha.

DO BLOG DE REINALDO AZEVEDO

Até Elio Gaspari Reconhece, mas…

Leiam trecho da coluna de hoje de Elio Gaspari: Não foi o PT nem o PSDB, foram os dois:

O PROFESSOR Claudio Salm investigou os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 1996 e 2002 (anos tucanos) e daí a de 2008 (anos petistas). Ele verificou que a ideia segundo a qual Nosso Guia mudou radicalmente a vida do andar de baixo nacional é propaganda desonesta. Estimando-se que no andar de baixo estejam cerca de 50 milhões de pessoas (25% da população), o que se vê nas três Pnads estudadas por Salm é uma linha de progresso contínuo, sem inflexão petista.
Em 1996, quando Fernando Henrique Cardoso tinha um ano de governo, 48,5% dos domicílios pobres tinham água encanada. Em 2002, ao fim do mandato tucano, a percentagem subiu para 59,6%. Uma diferença de 11,1 pontos percentuais. Em 2008, no mandato petista, chegou-se a 68,3% dos domicílios, com uma alta de 8,7 pontos.
Coisa parecida sucedeu com o avanço no saneamento. Durante o tucanato, os domicílios pobres com acesso à rede de esgoto chegaram a 41,4%, com uma expansão de 9,1 pontos percentuais. Nosso Guia melhorou a marca, levando-a para 52,4%, avançando 11,3 pontos.
O acesso à luz elétrica passou de 79,9% em 1996 para 90,8% em 2002. Em 2008, havia luz em 96,2% dos domicílios pobres.
Esses três indicadores refletem políticas públicas. Indo-se para itens que resultam do aumento da renda e do acesso ao crédito, o resultado é o mesmo.
Durante o tucanato, os telefones em domicílios do andar de baixo pularam de 5,1% para 28,6%. Na gestão petista, chegaram a 64,8% das casas. Geladeira? 46,9% em 1996, 66,1% em 2002 e 80,1% em 2008.
O indicador da coleta de lixo desestimula exaltações partidárias. A percentagem de domicílios pobres servidos pela coleta pulou de 36,9% em 1996 para 64,4% em 2008. Glória tucana ou petista? Nem uma nem outra. O lixo é um serviço municipal.
Nunca antes na história deste país um governante se apropriou das boas realizações alheias e nunca antes na história deste país um partido político envergonhou-se de seus êxitos junto ao andar de baixo com a soberba do tucanato.

Comento (Reinaldo Azevedo)
Como se vê, são os números que provam a vigarice política do discurso do PT. Se até Elio Gaspari reconhece, não é? Se bem que ele o faz amparado num estudo insofismável, com dados do IBGE.

O que acho curioso é que Gaspari não consegue deixar de dar uma porrada no PSDB. Reparem que ele acredita que o partido não divulga adequadamente suas conquistas por “soberba”. Ora, por que um partido se orgulharia de não exaltar as suas realizações?

A pergunta: não terá tido o partido um pouco mais de decoro em anunciar os seus feitos do que tem Lula em cacarejar até aqueles que não são seus?

Gaspari poderia ter lembrado, por exemplo, das primeiras palavras de Dilma Rousseff no programa eleitoral do PT: “Até 2002, o Brasil era um país que tinha tudo, mas não tinha nada…” EU APONTEI A MENTIRA DO PROGRAMA AQUI. E FUI PRATICAMENTE O ÚNICO NA IMPRENSA A FAZÊ-LO. O texto é este: POR QUE GOSTEI DO PROGRAMA DO PT, AQUELE VERDADEIRO SHOWROOM DE MENTIRAS. E a imprensa? Será que não erra nem um pouquinho com o governo FHC? E o colunismo?

Aliás, quantas foram as vezes em que o próprio Gaspari relevou alguns de seus feitos e quantas foram as vezes que preferiu falar naquela tal privataria? Com um particular senso de justiça, Gaspari está dizendo que a culpa da difamação é do próprio difamado.

TIP - Surprise

Uma entrevista interessante com o ex-ministro das Comunicações de FHC.

Crise? Que crise?

Texto: Ana Magalhães |

 

Não existem meias palavras para Luiz Carlos Mendonça de Barros. Quando o assunto é a condução da crise pelo governo Lula, ele não poupa elogios. “Não dou nota 10, mas dou quase 10.” Questionado, porém, sobre a recente tentativa do governo de desvalorizar o real por meio da cobrança de IOF sobre capital estrangeiro, ele é pura acidez. “Foi um tiro n’água. A desvalorização do real não vai acontecer.” Economista e sócio da Quest Investimentos, Mendonça previu há seis meses que o dólar cairia para o patamar de 1,80. Agora sua expectativa é a de que a inflação voltará a crescer a partir do ano que vem. “O governo precisa reduzir os gastos, mas isso não vai acontecer especialmente às vésperas de um ano eleitoral”. Nessa entrevista, concedida em sua casa no bairro Jardim América, em São Paulo, ele antevê uma eleição complicada para o PSDB em 2010, define como “caótica” a postura de Lula com relação às privatizações e conta como foi enfrentar a Justiça durante dez anos – sob a acusação de haver beneficiado a Telemar durante o processo de privatização da Telebrás – até sua absolvição em março desse ano.

O Brasil está realmente saindo da crise?
Crise é hoje uma coisa que passou. Quando você olha para o Brasil, a gente pode dizer que aqui ela nem começou. Essa crise tem uma característica interessante porque talvez 70% dela tenha sido pânico. O mundo parecia que tinha acabado, as empresas reduziram produção, desempregaram gente e aqui  não foi diferente. Nesse momento é fundamental que o governo tenha uma atitude a que chamamos de anticíclica. Está todo mundo reduzindo produção e o governo estimula e gasta. É essa a receita clássica keynesiana. Nisso o governo brasileiro teve nota muito alta, não dou 10, mas dou algo muito próximo de 10. Como os bancos privados pararam de emprestar eles puseram os bancos públicos. Isso diminuiu a intensidade da crise. O consumidor não entrou em pânico. O Banco Central também agiu de uma forma procíclica, reduziu as taxas de juros, o que ajudou ainda mais a recuperação. De maneira que o Brasil já saiu da crise e, mais do que isso, vamos crescer no ano que vem. Segundo estimativa do pessoal técnico da Quest, será um crescimento de cerca de 6%. Esse ano em que se esperava uma queda, o PIB vai ser positivo em 0,5, ou 0,4%, mas vai ser positivo.

O maior problema da política econômica brasileira hoje é a valorização do real?
É um dos problemas. Outra questão é que vamos começar a ter um problema de inflação já a partir do ano que vem. Porque a economia está muito aquecida e aqui tem um erro do governo. Se o governo teve nota 10 nesse momento de pânico ao aumentar seus gastos e colocar os bancos públicos para emprestar, ele agora teria que reduzir os gastos porque a economia já está suficientemente forte para levar o crescimento para a frente. E o governo não vai fazer isso especialmente às vésperas de um ano eleitoral. Então, você tem a valorização do real, que é um problema de prazo mais longo, e tem o superaquecimento da economia principalmente no mercado de trabalho.

Em uma entrevista em 2006, o senhor comenta que o PT estava usando um software pirata para conduzir a economia brasileira e o software original seria do PSDB. O senhor mantém essa opinião? Com a crise, o PT passou por um processo de amadurecimento da sua política econômica?
O PT não. Acho que o presidente Lula amadureceu. Ele teve uma sorte que foi ter colhido os frutos de uma política econômica que não era dele. Só que, por necessidade, quando assumiu o governo, ele teve uma crise muito séria de confiança e percebeu que para evitar problemas tinha que mudar o discurso e fez a Carta ao Povo Brasileiro. Ele realmente mudou. Embora tenha usado o software pirata macro econômico, ele introduziu as políticas sociais, como o aumento do Bolsa Família e principalmente o aumento real continuado do salário mínimo. Isso não fazia parte do software dos anos Fernando Henrique. Lula tem o mérito de ter feito essa gambiarra social que funcionou muito bem de maneira que hoje o fruto do crescimento realmente mexeu em 25 milhões de brasileiros que deram uma subida na escala social. Isso foi muito bom porque esse pessoal passa a consumir e a economia anda. Dei uma entrevista para a BBC onde eu falo que o que deu certo foi a combinação de oito anos de Fernando Henrique com oito anos de Lula. Essa combinação foi muito feliz para nós brasileiros.

Qual sua opinião sobre a medida tomada pelo governo federal taxando a entrada de capitais externos para aplicação no mercado financeiro brasileiro?
Essa é uma questão muito difícil de discutir. O problema do real valorizado é um problema para a sociedade. E é difícil dizer isso porque o real valorizado tem lado bom e lado ruim. Para o consumidor é positivo porque 8 você  tem importados mais baratos. Só que o dólar valorizado destrói emprego. Por um prazo mais longo, nós vamos começar a importar coisas já produzidas aqui. A reação do governo é a um problema real, mas é uma reação errada. É engraçado porque a gente sabe hoje que quem comprou dólar ontem foram os estrangeiros. Hoje o euro, que é uma moeda de referência no Brasil, teve uma valorização forte lá fora e o real foi atrás. E o estrangeiro que comprou ontem vendeu hoje de maneira que o dólar está hoje mais baixo do que estava ontem antes da medida. Quer dizer, a medida foi um tiro n’água. A desvalorização do real não vai acontecer. O PT tem pouca experiência. Normalmente, gente que muda de valor – gente que fica 25 anos falando uma coisa e depois muda de discurso – é prova de que não tem experiência. Se o governo acha que o problema do Brasil é a especulação, ele vai ter que chamar um pessoal do Fernando Henrique que sabe mais sobre especulação do que qualquer petista. E o especulador é o seguinte: se o governo toma uma medida insuficiente numa determinada direção, ele passa por cima. É o que está acontecendo hoje. E agora, José? Como é que faz? O software de FHC tem o tópico “como lidar com os especuladores”, mas o software pirata não tem esse tópico.

Que medidas poderiam ser feitas para realmente desvalorizar o real?
Eu não tenho a menor ideia, sou franco com você. É um problema internacional. Esse problema só vai terminar quando você resolver a questão da China, a questão dos juros nos Estados Unidos. É muito complexo.

As perspectivas favoráveis da economia brasileira dependem das eleições de 2010?
Acho que mesmo a candidata do presidente Lula vai seguir a política econômica. Só acho que vale a pena eles entrarem num acordo com os tucanos e comprarem o software original atualizado. Mas vai falar isso para eles… é complicado, é a mesma coisa você fazer o corinthiano e o palmeirense se juntarem. Isso não vai acontecer, mas seria preciso. Quando você olha para os próximos cinco anos, se o Brasil continuar com o software pirata do PT, o Brasil crescerá 4% ao ano. Se tiverem um software mais moderno e atualizado, nós crescemos 6%.

Supondo que o PSDB ganhe as eleições do ano que vem, o senhor acredita que haveria uma manutenção das políticas sociais atuais?
Não tenho dúvidas. Não tem volta atrás. O que o Lula fez foi correr o risco de dar errado. Como deu certo, já está incorporado.

Qual sua avaliação do PSDB como um partido oposicionista?
A gente aprendeu que é muito difícil você fazer oposição ao cara que é o Brasil. Se você olhar bem hoje para o PSDB, ele é o partido da elite. A cara do PSDB é a cara da elite. Os tucanos têm medo de serem considerados populistas. E o Lula não tem, o Lula é populista e é a cara de 80% dos brasileiros. O Lula é o Brasil. O Serra tem uma posição difícil, que discurso ele vai fazer? O que eu acho que o PSDB deveria fazer, mas não é para a eleição, é justamente apresentar o software na versão nova, e isso não está feito. O PSDB dispersou. Numa sociedade de massa pode-se dizer que 70% dos brasileiros são felizes gastando e consumindo e a venda no varejo está crescendo 10, 12% ao ano. Como é que você diz pro cara que a felicidade não é só consumir? O risco que corremos é que, a partir do próximo mandato, precisamos mudar um pouco o software econômico. Não é que esse esteja errado, mas é porque o mundo mudou, o Brasil evoluiu. Na época do Fernando Henrique o problema era valorizar o real, e hoje é desvalorizar.

Acredita que a união Serra e Aécio tem condições de se estabelecer?
Estamos falando de dois políticos maduros. Nunca achei que essa disputa entre Serra e Aécio vai acontecer. Antes da eleição cada político defende o seu, mas na hora H eles sabem o que tem que fazer. Política é que nem desfile de escola de samba. Se você chegar 15 minutos antes no local do desfile você vê o caos e acha que os caras não vão conseguir desfilar. Mas quando chega o momento, todo mundo sabe o que tem que fazer. Político é a mesma coisa. No ano que vem o PSDB terá um discurso que incorpora os programas sociais e o Lula vai ter um discurso que incorpora a economia. Acho que a probabilidade de o 8 Lula ganhar com a Dilma é grande, porque a economia vai estar muito bem.

Mesmo se Aécio e Serra saírem juntos?
Na economia moderna o sujeito vota com o estômago e com o bolso. A vida desse pessoal melhorou muito. Eu tenho um gráfico que mostra que percentual do salário mínimo você tem que usar para comprar um botijão de gás. É impressionante, porque hoje você compra com 40% menos do que há alguns anos. Eu me lembro de um político nordestino que dizia que em ano eleitoral o gás é o preço mais importante. Porque com o gás o cidadão pensa no governo três vezes por dia: no café da manhã, no almoço e no jantar.

Concorda com a orientação do governo Lula no que se refere às privatizações?
Lula, com relação às privatizações, tem um discurso caótico. É o tipo de assunto que ele não tem uma posição concreta e por não fazer nada está atrasando o Brasil. A questão do aeroporto aqui em São Paulo é um caos. Não foi feito absolutamente nada. Estamos com problema de infraestrutura de novo e isso só vai piorar. Nada foi feito para aliviar os corredores de transporte no Brasil. O porto de Santos está parado até hoje porque o governo tem que fazer dragagem e não faz nada. São questões que não estão aparecendo agora, elas vão aparecer daqui a dois ou três anos.

Qual sua avaliação a respeito da tentativa do governo federal de influir nas decisões de empresas privatizadas por meio de pressão política ou da ação dos fundos de pensão das empresas estatais?
Se é esse o custo que nós temos para o Lula manter a política ma­croeco­nômica eu pago. Quando você passa pelo governo, você aprende a se preocupar com certas coisas e outras viram um detalhe. Vamos nos preocupar com problemas gordos. A telefonia, por exemplo, está num momento incrível de crescimento e isso é o que importa. Com alguns assuntos a gente não pode ser cricri e ficar questionando tudo. Todo governo toma algumas medidas que não precisavam ser tomadas, mas que muitas vezes são tomadas até para atender à base aliada. Mas você não muda a dinâmica básica da sociedade.

Qual a sua opinião sobre o modelo de exploração do pré-sal?
Se é partilha ou concessão, tem coisas boas e coisas ruins. Portanto não me preocupo muito. O que não pode é a Petrobras ser monopolista do pré-sal. Isso é um erro que tem que ser evitado.

Mudando de assunto, em março desse ano o juiz Moacir Ferreira Ramos, da 17ª Vara Federal de Brasília, absolveu-o (assim como a outros integrantes do primeiro escalão do governo FHC) da acusação de que vocês teriam beneficiado a Telemar no processo de privatização da Telebrás. Como foram esses dez anos de luta na Justiça?
Foi uma história muito chata e difícil, mas eu amadureci e aprendi várias coisas. A mídia, por exemplo. A Veja deu uma capa na época do que surgiu e recentemente deu uma foto com uma notinha lá dentro da revista. Aí é você entender a mídia, e mais ainda a mídia brasileira. Eu aprendi com um sujeito que dizia que a mídia gosta de desgraça e de sangue ou de celebridade. Agora, o sujeito que passou por um problema e venceu infelizmente não chama a atenção da imprensa. Do ponto de vista da luta na Justiça, posso dizer que me diverti muito porque é um desafio muito grande, mas você encontra na Justiça, especialmente nos níveis mais elevados, um diálogo correto. Tive a vantagem que foi o BNDES que incorreu com os custos, porque gasta-se muito dinheiro com advogado. O Sérgio Motta fez a lei das privatizações colocou na lei que todo agente público que for processado pelas decisões tomadas teria suas despesas pagas. Então foi ótimo. É evidente que teve fases.  Houve um momento muito difícil no começo, porque houve um prejulgamento por parte da imprensa. Eu tomei a decisão de ir ao Senado, e aí eu inovei porque ao invés de fugir eu fui lá. Sabia que ia ser apunhalado, mas naquele momento não poderia fugir. Eu tive uma orientação do Fernando Henrique para viajar, sumir, mas eu quis enfrentar.

O senhor teve medo?
Não, porque eu não tinha feito nada. Gravado do jeito que eu fui, se tivesse alguma coisa errada tinha aparecido. O que apareceu era uma coisa truncada.

Os que me conhecem sabem que admiro bastante o governo Fernando Henrique, apesar dos seus percalços. Não tenho receio de admitir isso, mesmo sabendo que sou grande minoria. Mesmo sabendo que quase todos os meus amigos me tachariam a pecha de reacionário, neoliberal ou outros xingamentos. Que seja.

Essa simpatia começou nos idos de 97, quando eu comecei na universidade. A universidade, a efervescência do movimento estudantil conseguiram me piorar. De esquerdista que era (até participei de passeatas anti-FHC…), fui para o sentido contrário ao que se espera de um universitário consciente.

Acontece que os dizeres “Fora FHC” pintados em cada muro da UFMA pouco a pouco foram me dizendo que tipo de projeto para o país tinham aqueles progressistas da universidade. O governo, se não era o ideal, estava bem longe de ser ruim. Em meio a várias crises internacionais sucessivas, com a estabilidade econômica sendo (bem ou mal) defendida a qualquer custo – mesmo que isso significasse ainda ficar atado por alguns anos – o país ainda conseguia crescer um pouco. Percebia-se que o Brasil dava um salto de qualidade em vários aspectos, tornando-se um pouco menos irracional e mais institucional, mais profissional.

Foi assim que em 98 votei pela primeira vez contra a esquerda. Foi um voto de protesto contra o discurso “fora FHC” e pelo, com o perdão da expressão,  “se só tem tu, vai tu mesmo”.

O tempo passou. Foi quando Lula (e não o PT) teve a grande sacada: ou ele mudava o discurso amalucado, pseudorevolucionário, ou perdia de novo a eleição. O resto sabemos: com a “Carta aos brasileiros”, ele jogava no lixo o programa do PT e ganhava o apoio necessário do empresariado.

Mais 7 anos se passaram e, hoje, o panorama é justamente o oposto.

Acusam a oposição (leia-se PSDB) de não ter discurso. Isso é verdade. Em primeiro lugar, por ainda não existir um porta-voz da oposição. Além de os candidatos a candidato serem meio tímidos, em comparação com a presidenta Dilma. Em segundo lugar, é verdade principalmente porque o PSDB ainda (!) não se recuperou do choque de ver seu discurso ser subtraído pelo Lula e, pior ainda, de ver este sendo mais bem sucedido em sua execução.

A política externa de Lula é ridícula?

A política interna de Lula é fisiologista, atrasada e adiou a morte política de progressistas como Renan, Collor, Sarney & cia?

Ele fala bobagens populistas o tempo todo?

O país continua com os mesmos problemas no campo da saúde, educação e infraestrutura?

O crescimento do país, no período pré-crise, foi pífio, se comparado com o do resto do mundo?

A resposta para todas essas perguntas provavelmente é ‘sim’, e a oposição deve levá-las para o debate em 2010.

Nesse contexto, o polêmico artigo de FHC desta semana foi interessante para pôr fogo na oposição, que anda muito vendo o tempo passar. Mas me deixou também um pouco preocupado (e aqui me recordo de 97).

A oposição tem que admitir que a Lula devem ser dados também muitos créditos, principalmente pela coragem em avançar na área social, que é a área que realmente dá votos. Se o PSDB chegar só com críticas, vai perder feio. Ele precisa dizer rapidamente no que VAI mexer e no que NÃO VAI mexer.

Estou esperando só isso para definir o meu voto.

Para onde vamos?

Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da Terra”, de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?

Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.

É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois, se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista”, deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso…) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?

Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o.” Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha Casa, Minha Vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.

Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: “L”État c”est moi.” Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.

Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.

Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas -, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República

Dois mitos

20/10/2009

Atenção com a seguinte matéria da Folha, ela desmonta dois mitos que se criaram em torno do tema “inchaço da máquina pública”.

O primeiro foi criado pelo eixo PSDB/DEM e diz os gastos decorrentes com a máquina pública são sempre negativos para o país, por não representar “investimentos”. De acordo com essa posição, investimento se resume a obras de infra-estrutura.

O segundo mito foi criado pelo PT e diz que os conservadores (os tucanos, de modo especial, se é que podem ser chamados assim) têm como sumo ideal político-administrativo o Estado mínimo, como postulado pelo Consenso de Washington (Deus, como estou ficando velho!). Como argumento irrefutável, a esquerda cita o programa de privatizações dos governos Collor e, principalmente, de FHC.

A matéria confirma a similaridade da visão econômico/administrativa de Serra com Lula. E, mais ainda – como mostra uma matéria da revista Piauí desse mês – de Serra com Dilma.

Da Folha

Tucanos aumentam máquina pública em SP

Governos do PSDB, críticos da expansão do funcionalismo sob Lula, ampliam em 33 mil nº de servidores no Estado desde 2003

Governo paulista, assim como o federal, diz que ampliação do quadro de pessoal ocorreu nas áreas de educação e segurança

GUSTAVO PATU

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Críticos da expansão da máquina do Estado promovida nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os tucanos também aumentaram, no mesmo período, o quadro de pessoal e os gastos com o funcionalismo em sua principal vitrine administrativa, o governo paulista.

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Kennedy Alencar, jornalista da Folha, deu o “furo”: Aécio fechou acordo e será vice de Serra em 2010, acabando com a polêmica sobre, afinal de contas, quem será o candidato do PSDB às eleições de 2010. O acordo teria sido costurado pelo FHC e envolveria cláusulas engraçadas, como a de negar que tenha havido qualquer acordo, bem como de divulgá-lo só em setembro.

Acontece que, de fato, PSDB, Aécio (irado) e o próprio FHC negam qualquer acordo, e ficamos num nonsense. Piada pronta. O Reinaldo Azevedo descascou o repórter da Folha, ao seu estilo, acusando-o de estar a serviço da campanha petista, por estar desestabilizando o campo tucano. O Nassif no início endossou, mas após sondagens, nem disse sim, nem não.

O que aconteceu mesmo? Só esperando setembro…

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