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Mais casos curiosos

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

A coluna vive de dados que leio e ouço, que me chamam a atenção, como os leitores sabem. Não invento nada (não faço colunas sobre “a nível de”, por exemplo). Hoje (domingo) comento coisas que li na semana passada.

A coluna de Juca Kfouri na Folha (15/10/2009) tinha o seguinte título: ARGENTINA SALVA. URUGUAI QUASE. Um idiota da objetividade, do mesmo tipo de objetividade que levaria a criticar a frase de Pondé que comentei na semana passada, diria que o título é ruim, porque “Argentina” é palavra feminina e “Uruguai”, masculina. Assim, haveria um grave problema, porque o leitor recuperaria “salva”, o que daria “Uruguai quase salva“. Convenhamos que seria bem ridículo fazer uma crítica como essa. Mas não deixa de ser um dado curioso: quem escreve ou fala tal sequência precisa da cumplicidade do leitor. E que o leitor não seja uma besta.

Juca continua: “não chorei pela Argentina. A quero na Copa. (…) A quero como a quis com Passarela…”. Um desses controladores da língua (ainda bem que não são controladores de voo!) diria que há aí um erro gravíssimo, que consiste começar a oração com pronome oblíquo (no caso, “a”). Pior: Juca repete o erro, como se fosse Palermo, o argentino que errou três pênaltis em uma só partida.

Juca foi salvo por outro colunista da mesma Folha, porque, justamente nesse dia, em outro caderno, o Prof. Pasquale pedia, surpreendentemente, que não se fizesse nada com (contra?) crianças que escrevem “Me convidaram para…”. Alvíssaras! Antigamente, ele diria, eu acho, que “no formal…”.

Na verdade, o que chama atenção no texto de Kfouri não é o pronome no começo da oração. O ¿estranho¿ é que o pronome seja o que é, porque se trata de um que está em franco desaparecimento.

Explico, começando do começo: uma das características do português do Brasil, atestada há muito tempo, é sua preferência pela próclise (“me dá um cigarro”, e não “dê-me um cigarro”, como insiste o conhecido poema de Oswald). Outra é o progressivo desaparecimento de o, a, os, as (e das variantes lo, la, los, las / no, na, nos, nas). Como bem disse Mattoso, ou o pronome objeto é ele, ela (se Juca tivesse a coragem linguística que exibe em outros terrenos, teria escrito “quero ela na Copa”), ou, para fugir da crítica, usa-se lhe como objeto direto, embora aquela gramática que você tem na estante e que nunca leu diga que lhe faz função de objeto indireto. Borges poderia acrescentar algumas regras gramaticais a seus seres imaginários.

O que fez Juca? Usou nosso bom “brasileiro” ao começar a frase com o pronome oblíquo, mas escolheu para a função um pronome pouco brasileiro… Aí ficou engraçado.

Do ponto de vista estrutural e histórico, o que esses dados revelam? Que uma língua é puxada para diversas direções: umas, em direção à inovação (o pronome oblíquo no começo da oração é só um exemplo), outras, em direção à conservação de formas antigas (o pronome “a” também é só um exemplo). Alguém pode querer que seu texto seja “conservador”, mas será traído pela entrada de uma inovação da qual não se dá conta. Esse tipo de comportamento em geral é percebido. O que é menos percebido é o inverso: quando alguém (do povo) fala e “erra” uma regência ou uma concordância, em geral não se observa que ele seguiu muitas outras regras, em relação às quais pode ser conservador.

E o primeiro caso, o do Uruguai? É diferente desses outros, e é um pouco parecido com os dois seguintes, que encontrei na ISTOÉ 2083, de 14/10/2009: “Embora separados também politicamente, o ex-casal Suplicy atuou na mesma direção” (p. 46). “Depois de irem juntos ao casamento de Olga Safra e Maurício Levitin, em S. Paulo, o casal foi fotografado pela primeira vez…”.

Nesses dois casos, uma palavra singular, “casal”, retoma uma construção plural anterior (separados – o ex-casal atuou; irem juntos – o casal foi). É a velha silepse. Os dois elementos relacionados estão em orações diferentes, mas o fenômeno é o mesmo.

Estes são exemplos de que o texto aposta que o leitor fará uma pequena manobra por sua própria conta. Manobra banal, diga-se. Mas reveladora de que o leitor não é um simples receptor. Por isso, não é necessário ter tanta preocupação com certas ambigüidades. Como nesta manchete do dia 16/10, de um jornal de Campinas: “Brasil sub-vinte decide com Gana”.

A maiúscula salva? Sim, claro. Mas se eu não visse a manchete, só a ouvisse? Não haveria problema: a manchete é destinada a quem está informado sobre o torneio, ela postula um leitor de cadernos esportivos.

Observando bem, descobre-se que tudo é assim: os textos não são “claros”. Primeiro, porque é quase impossível. Segundo, porque isso seria necessário apenas para leitores que se comportam como máquinas. Erre o endereço do e-mail, e ele não vai. Mas quem é um computador?

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