Leia primeiro o post anterior (“Sem perdão”). Só depois leia este.

Do blog de Reinaldo Azevedo

Na década de 90, Dilma montou duas lojas para vender bugigangas importadas do Panamá. Não deu certo. A gerente do PAC não conseguiu levar o negócio adiante. O “empreendimento” durou um ano e cinco meses. Fechou em julho de 1996. “A gente esperava uma loja com artigos diferenciados, mas, quando ela abriu, era tipo R$ 1,99. Eram uns cacarecos”. A afirmação é de Bruno Kappaun, dono de uma tabacaria no centro comercial Olaria, onde se instalou uma das lojas. E como Dilma explica a sua incompetência? Vocês podem não acreditar, mas aconteceu! Ela culpou… FHC!!! Não por acaso, o nome do empreendimento era “Pão & Circo”. Pão, pelo visto, não rendeu. Mas continua a render circo…

Na tarde desta terça, depois de um encontro com Robson Andrade, presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), a mulher que quer comandar o Brasil explicou por que não conseguiu tocar duas lojinhas de 1,99:  “Quando o dólar está 1 por 1 e passa para 2 ou 3 por 1, ele [o microempresário] quebra. É isso que acontece com o microempresário, ele fecha. A minha experiência é essa e de muitos microempresários desse pais”.

Ah, bom!

Só que Dilma está contando o contrário da verdade. E isso parece ser um traço compulsivo de seu caráter. O que quer dizer “dólar a 3 por 1″? É assim, com essa clareza, que ela pretende governar o país se eleita?

Todos vocês sabem que lojas de produtos importados prosperam com mais facilidade quando a moeda local está valorizada em relação ao dólar, certo? Gastam-se menos reais para comprar bugigangas lá fora. É o que temos hoje, diga-se. Os brasileiros nunca gastaram tanto em viagens ao exterior porque os preços, em dólar, estão baixos.

Não! Dilma fechou por incompetência mesmo! Ela abriu sua lojinha quando um dólar valia menos de R$ 1. Era o melhor momento. E fechou quando havia justamente a paridade, “1 por 1″, e não “3 por 1″, como ela afirma.  Segue a cotação do dólar em real mês a mês, enquanto a loja da ministra durou. Com competência, poderia ter ficado rica trabalhando:

1995
Fevereiro 0.837
março 0,884
Abril 0,905
Maio 0,891
Junho 0,909
Julho 0,926
Agosto 0,942
Setembro 0,953
Outubro 0,958
Novembro 0,962
Dezembro 0,967
1996
Janeiro 0,972
Fevereiro 0,982
Março 0,986
Abril 0,989
Maio 0,995
Junho 1,001
Julho 1,006

Vale dizer: Dilma teve a sua lojinha de porcariada importada do Panamá no melhor momento da história do Brasil para se ter algo do tipo  — aliás, para se vender importados, para ricos ou para pobres. Como se nota, não só o real não estava desvalorizado como foi o período de maior valorização de sua história. Aliás, os críticos do governo acusavam a valorização excessiva, não o contrário. E não é por acaso. Vejam as tabelas acima.

Querer acusar o governo anterior por um fracasso pessoal revela, sem dúvida, um traço de caráter. Mentir de forma tão abismal sobre um período da economia, afirmando justamente o contrário do que aconteceu, bem, aí já é uma questão que tem também uma dimensão política. E eu fico muito impressionado que uma mentira possa ser dita com esse desassombro, com essa ligeireza, na certeza de que não será contraditada.

Mas eu entendo: essa gente se acostumou a dizer qualquer coisa. A besteira vai para a rede, ninguém contesta, e fica tudo por isso mesmo. Afinal, vivemos a era do “aspismo”. Se Dilma afirmar que rinoceronte é uma ave, sua versão será publicada sem contestação. Quem quiser que forneça o “outro lado”, e o leitor escolhe se rinoceronte é ave ou réptil, se é que me entendem…

Sem perdão

10/09/2010

Da Veja

José Roberto Guzzo

SEM PERDÃO

O que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso poderia ter feito de tão ruim assim em sua vida, pública ou particular, para ser tão malquisto nessa escura nebulosa que é o mundo político brasileiro? O fato é conhecido já faz bom tempo, mas tende a ficar mais evidente em épocas de campanha eleitoral. Seus adversários, no PT e no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tentam demonstrar diariamente que Fernando Henrique continua sendo, oito anos após deixar a Presidência, o inimigo número 1 do povo brasileiro.

Quase todos os que deveriam estar do seu lado fazem tudo o que podem para esconder que têm, ou tiveram, alguma coisa em comum com ele, qualquer que seja. Por que isso? A hipótese mais provável é talvez a mais simples: o que não se perdoa ao ex-presidente é o seu sucesso. O Brasil, por força de teimosa tradição, em geral não convive bem com o êxito; na célebre defi nição do compositor Tom Jobim, sucesso, por aqui, é “insulto pessoal”, tanto para inimigos como para amigos de ocasião. Em vez de admiração, provoca ressentimento. Em vez de afeto, atrai inimizades. Produz inveja, despeito, rancor, mesquinharia – enfim, põe em modo operacional toda uma coleção de traços que estão entre os menos atraentes da personalidade humana.

Falar mal de Fernando Henrique Cardoso tornou-se, ao longo dos últimos anos, um esporte nacional, sobretudo entre o que se chama de “elite brasileira”. É um dos passatempos preferidos da maioria dos nossos mais lustrosos capitães de indústria (ou de comércio, ou de finanças), fornecedores do estado ou empreiteiros de obras públicas – algo que transparece, aliás, nas doações de quase 45 milhões de reais feitas entre janeiro e julho para a candidatura oficial, mais do que o dobro do que se deu à oposição. A popularidade do ex-presidente é igualmente baixa entre os colossos do nosso mundo político, a começar pelos que têm as quilometragens mais longas, e os prontuários mais grossos, nesse tipo de ocupação.

Não gostam dele, de modo geral, professores universitários, cientistas políticos, analistas da imprensa, economistas, grandes vultos da cultura nacional – e possivelmente, como diria a socialite-celebridade Eleonora Rosset, o resto da intelligentsia brasileira, “de Marilena Chaui a Hebe Camargo”. O desapreço por Fernando Henrique, enfim, acabou se tornando um fenômeno interpartidário. Começou com o PT e o “fora FHC”, por questões de estratégia e marquetagem política – era preciso “desconstruí-lo”, pois era ele o inimigo a abater. Com o tempo, os seus próprios aliados passaram a acreditar no que dizia o PT – e, por questões de estratégia e marquetagem política, decidiram afastar-se dele, convencidos de que “FHC custa votos”. Resulta que estamos na terceira campanha eleitoral seguida em que a prioridade do PSDB é fazer de conta que não tem nada a ver com Fernando Henrique. Ele foi o único presidente que o partido elegeu até hoje – já no primeiro turno, por sinal, das duas eleições que disputou. Mas desde janeiro de 2003 não serve mais; tornou-se, politicamente, uma espécie de portador de doença contagiosa.

Os pecados dos quais Fernando Henrique é acusado pelos que sempre foram seus inimigos políticos e pelos que deixaram de ser amigos são numerosos demais para caber numa mera página de revista. Há alguma coisa errada no Brasil? Deu problema? Está com defeito? A culpa é dele, e ainda não deu tempo para consertar. Entende-se melhor o espírito da coisa quando se verifica que a acusação talvez mais repetida descreve o ex-presidente como “arrogante” ou “vaidoso” – uma escolha realmente infeliz de palavras, pois comparado ao seu sucessor nesse quesito, justo nesse, o homem chega a parecer um monge trapista.

Mais que tudo, porém, foi vendida e comprada a lenda segundo a qual ele deixou o país “em ruínas” e passou uma “herança maldita” para o presidente atual. Mas o que aconteceu no mundo dos fatos foi exatamente o contrário. A verdade é que pouco do que existe de positivo no Brasil de hoje não está ligado, de alguma forma, aos dois períodos de Fernando Henrique na Presidência. Não é preciso complicar as coisas. Foi seu governo que finalmente encarou e venceu a inflação no Brasil – ou teria sido algum outro?

Em cima desse alicerce, no qual não se mexeu em nada, foi construída a casa que está de pé até hoje, a começar pelos aumentos reais de renda que tiraram milhões de brasileiros da pobreza e que agora são descritos como a maior conquista da história nacional.

Para isso não há perdão.

O Nassif é capaz de fazer boas análises técnicas quando quer, mas frequentemente é vitimado por uma miopia ideológica e cai naquilo que comentei em outro post: só consegue captar uma parte da verdade.

No texto ele se diz igualmente favorável a uma visão mercadista (foco na iniciativa privada como agente) e a uma visão estatista (foco no Estado como agente). Depende do caso. E cita exemplos. Fala das décadas de 50, 60, 80…

Não fala da de 90, mas as críticas que seguem demonstram que algo de muito ruim aconteceu naquele período. Não há dúvidas: foi o governo FHC.

Mas FHC não era mercadista, como os seus críticos gostam de acusá-lo? Ou representou também o início na guinada de modernização da aplicação de recursos públicos, com o programa Avança Brasil (o PAC de FHC), como o próprio Nassif afirma de vez em quando?

Afinal, Nassif, o que você pensa?

Periodicamente, o país é sacudido por um conjunto de slogans econômicos, que em vez de elucidar a discussão serve apenas para propósitos políticos, de grupos.

Foi assim no final dos anos 80, com a defesa enfática do fechamento da economia, da reserva de mercado da informática. E tem sido assim nos últimos anos, mas em direção inversa: o ataque a qualquer forma de defesa da produção nacional.

***

A economia não funciona assim. Posições fechadas em uma direção ou outra são típicas de quem faz política ou joga para a plateia. No dia-a-dia da economia, os bons gestores pensam pragmaticamente, buscando para cada momento a melhor solução.

***

Tome-se o caso de um grupo de empresários e economistas ligados a ele, que participaram ativamente da vida nacional nos anos 50 e 60.

Nos anos 50, o futuro mercadista intransigente, Roberto Campos, ajudou na montagem do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), porque sabia da necessidade de um banco de desenvolvimento que garantisse capital de longo prazo.

No final dos anos 60, o próprio Campos incentivou o aumento da posição do Estado em vários setores da economia, quando percebeu que o setor privado não dava conta.

E vice-versa.

***

Em meados dos anos 80, economistas do BNDES já tinham percebido a importância da abertura gradual da economia. Mas foram impedidos pelos repetidores de slogans da época.

***

Agora, ocorre o mesmo em ordem inversa. Há necessidade de grandes investimentos em infra-estrutura. Há ênfase na participação do setor privado, mas há elos da cadeia que não estão formados. Por exemplo, o seguro para grandes obras, ou a necessidade de financiamentos de longo prazo.

Nesses casos, é papel do Estado complementar, pela simples razão que, não complementando, as obras não saem.

***

É evidente que tem que haver acompanhamento crítico das ações de Estado. Por exemplo, o BNDES deveria concentrar tanto financiamento em tão poucos grupos? Os financiamentos obedecem aos princípios dispostos no Programa de Desenvolvimento Produtivo? A Petrobras poderia buscar outras fontes de financiamento?

***

No entanto, o que se ouve em redes de rádio e TV é apenas a repetição de slogans, como se toda intervenção pública fosse daninha ou houvesse alternativas privadas.

Infelizmente, no âmbito de algumas redes de mídia, a discussão econômica não visa mais a busca de resultados, mas o embate ideológico, a repetição de slogans, como se objetivo final não fosse o de promover o desenvolvimento do país.

***

O mercado terá um papel relevante na nova etapa. Caberá a ele reunir capitais para grandes projetos, promover a reorganização produtiva do país, através da abertura de capitais das empresas. Mas em qualquer país maduro já há necessidade da mão do Estado quando houver falhas de mercado.

Há muito, empresas modernas brasileiras, gestores públicos, aprenderam a buscar resultados, a colocar o fim na frente dos meios. Mas no debate público brasileiro, ainda não ocorre. Se for necessária a participação do Estado para viabilizar uma hidrelétrica fundamental para o país, preferem que se fique sem a hidrelétrica.

Felizmente sua atuação serve apenas para alegrar plateias.

Olha aí a Marina fazendo o que o PSDB não faz por medo e o PT não faz por conveniência e uma alta dose de cinismo.

Da Agência Estado

Marina critica tucanos por não defenderem governo FHC

ELDER OGLIARI – Agência Estado

A candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, criticou a campanha do tucano José Serra por não defender aquilo que o PSDB conquistou quando esteve no governo. “Tenho a coragem de fazer aquilo que nem as lideranças do PSDB são capazes de fazer, que é dar o crédito da política econômica para o (ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso, mesmo ele não sendo assim tão popular”, disse ela, durante entrevista coletiva realizada hoje, em Porto Alegre, para reiterar que o reconhecimento é questão de justiça, de um novo jeito de fazer política.

A presidenciável do PV fez críticas, ainda, à campanha de Serra por usar imagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na propaganda de televisão. “Eu tenho admiração pelo presidente Lula, mas tenho a coragem inclusive de não ficar utilizando a imagem dele, os feitos dele de forma oportunista para a minha candidatura”, afirmou Marina, numa alfinetada ao PSDB, que mostrou Serra ao lado de Lula num dos primeiros programas da campanha para afirmar que os dois são líderes experientes.

Marina passou o dia em campanha no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre recebeu o apoio do deputado do parlamento europeu Daniel Cohn-Bendit, fez uma palestra para empresários na sede da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul (Federasul) e conheceu um programa do Ministério Público Estadual (MPE).

Em Canoas, na região metropolitana, a candidata do PV visitou uma Casa de Marina, oferecida por um casal simpatizante para debates e divulgação da campanha no bairro Estância Velha.

Fatura

24/08/2010

E o que se previa aconteceu mais cedo do que o esperado: Dilma já vence a eleição no primeiro turno, com uma ajudinha de Lula e uma inesperado descontrole na campanha tucana. A fatura está fechada: é esperar 3 de outubro pra formalizar o negócio. De resto, a briga vai ser pelo governo dos estados: última esperança da oposição.

Oposição? Ela existe? Se existe, ela se opõe a que? Essa é uma pergunta intrigante e que pode render um bom debate sobre o Brasil destes últimos 15 e o dos próximos 15 anos.

Ficou constrangedor ser de oposição no Brasil atual. Em primeiro lugar porque ela é irrisória (ouvi dizer que algumas pesquisas já dão que o governo Lula é avaliado como ruim/péssimo por 3% com margem de erro de 4%. Ou seja, pode ser até de -1%…). Em segundo lugar porque os seus tradicionais líderes ultimamente têm batido cabeça. Estão completamente perdidos.

Só uma oposição perdida colocaria para vice um sujeito obscuro como esse tal Índio, fruto mais de conchavos paroquiais no Rio do que propriamente de articulações políticas.

Só uma oposição perdida deixaria de defender o único ativo que ela ainda tem, que é o governo de Fernando Henrique Cardoso. Pelo contrário, parece que tem vergonha dele. Assim, como eles querem que o povo não vote na Dilma?.

E assim por diante.

Ela vai precisar se renovar.

A única candidata que está fazerndo um contra-ponto e uma síntese sensatos entre as duas visões predominantes (PT e PSDB) é a Marina, que visivelmente está se preparando para futuras eleições. Está mais tucana que o Serra. Nisso se parece muito com Aécio, outro grande quadro.

Enquanto isso, vamos pra oito anos de Dilma. Que faça um grande governo.

Leiam o que Marina Silva, ex-petista histórica e pré-candidata à presidência, disse ontem:

“A gente tem de superar a visão tradicional de oposição pela oposição. A minha visão em relação ao Brasil é que nós tivemos conquistas nos últimos 16 anos de ambos os governos (FHC e Lula). As conquistas devem ser preservadas, mas a história não pára”.

A palavra burocracia pode ser usada com vários sentidos. Seria sinônimo de demorado, com excesso de formalismos etc. Mas também de impessoal, que não depende da pessoa que pratica ou recebe a ação. Ou sem vida, sem vontade própria, frio.

Não sou sociólogo, mas sei que alguns destes já se debruçaram sobre o tema. Em especial, Max Weber, que formulou a teoria necessária. Segundo ele, a burocracia seria um modelo desejável por tirar ao máximo dos “poderes” (de um administrador de empresas, de um funcionário público, de um governante…)  o caráter pessoal, dando a ele um caráter sistemático, eficiente, formal, idealizado, sem distinção de prestador ou destinatário do serviço. Ele, Weber, lógico, tomava como parâmetro o que havia antes da sociedade industrial.

Com o tempo, é certo, o sentido pejorativo ganhou preponderância. Eu pergunto: e, aplicando-se a um partido político, burocrata pode ter algum sentido positivo? O que distigue, em um partido, um membro burocrata de um não-burocrata?

Eu só consigo imaginar uma distinção: o burocrata não está ligado diretamente às bases do partido. Está ligado somente à estrutura e, se detém alguma hegemonia nela, esta hegemonia deriva de outros fatores que não o clamor das bases (muitas vezes ignorado pelo burocrata). O dedo do líder, por exemplo.

Agora leiam o que dizia FHC no livro O Presidente Segundo o Sociólogo (1997)  sobre Lula e o PT. Será que aprofecia se realizará no ano que vem com a escolha de Dilma Rousseff, a burocrata-mor do governo, como candidata?

“A sociedade de massa projeta o líder e diminui a força do burocrata. Veja que, no PT, os mais ligados a estruturas de aparelho não queriam o Lula como candidato, mas tiveram de ceder. Por quê? Porque o Lula, nesse aspecto, é renovação. Ele, como tem liderança, pode se contrapor à burocracia do partido. No dia em que o PT optar por um candidato burocrata, o partido acaba. O que o salva é alguém que o simbolize, e o Lula simboliza.”

Os que me conhecem sabem que admiro bastante o governo Fernando Henrique, apesar dos seus percalços. Não tenho receio de admitir isso, mesmo sabendo que sou grande minoria. Mesmo sabendo que quase todos os meus amigos me tachariam a pecha de reacionário, neoliberal ou outros xingamentos. Que seja.

Essa simpatia começou nos idos de 97, quando eu comecei na universidade. A universidade, a efervescência do movimento estudantil conseguiram me piorar. De esquerdista que era (até participei de passeatas anti-FHC…), fui para o sentido contrário ao que se espera de um universitário consciente.

Acontece que os dizeres “Fora FHC” pintados em cada muro da UFMA pouco a pouco foram me dizendo que tipo de projeto para o país tinham aqueles progressistas da universidade. O governo, se não era o ideal, estava bem longe de ser ruim. Em meio a várias crises internacionais sucessivas, com a estabilidade econômica sendo (bem ou mal) defendida a qualquer custo – mesmo que isso significasse ainda ficar atado por alguns anos – o país ainda conseguia crescer um pouco. Percebia-se que o Brasil dava um salto de qualidade em vários aspectos, tornando-se um pouco menos irracional e mais institucional, mais profissional.

Foi assim que em 98 votei pela primeira vez contra a esquerda. Foi um voto de protesto contra o discurso “fora FHC” e pelo, com o perdão da expressão,  “se só tem tu, vai tu mesmo”.

O tempo passou. Foi quando Lula (e não o PT) teve a grande sacada: ou ele mudava o discurso amalucado, pseudorevolucionário, ou perdia de novo a eleição. O resto sabemos: com a “Carta aos brasileiros”, ele jogava no lixo o programa do PT e ganhava o apoio necessário do empresariado.

Mais 7 anos se passaram e, hoje, o panorama é justamente o oposto.

Acusam a oposição (leia-se PSDB) de não ter discurso. Isso é verdade. Em primeiro lugar, por ainda não existir um porta-voz da oposição. Além de os candidatos a candidato serem meio tímidos, em comparação com a presidenta Dilma. Em segundo lugar, é verdade principalmente porque o PSDB ainda (!) não se recuperou do choque de ver seu discurso ser subtraído pelo Lula e, pior ainda, de ver este sendo mais bem sucedido em sua execução.

A política externa de Lula é ridícula?

A política interna de Lula é fisiologista, atrasada e adiou a morte política de progressistas como Renan, Collor, Sarney & cia?

Ele fala bobagens populistas o tempo todo?

O país continua com os mesmos problemas no campo da saúde, educação e infraestrutura?

O crescimento do país, no período pré-crise, foi pífio, se comparado com o do resto do mundo?

A resposta para todas essas perguntas provavelmente é ‘sim’, e a oposição deve levá-las para o debate em 2010.

Nesse contexto, o polêmico artigo de FHC desta semana foi interessante para pôr fogo na oposição, que anda muito vendo o tempo passar. Mas me deixou também um pouco preocupado (e aqui me recordo de 97).

A oposição tem que admitir que a Lula devem ser dados também muitos créditos, principalmente pela coragem em avançar na área social, que é a área que realmente dá votos. Se o PSDB chegar só com críticas, vai perder feio. Ele precisa dizer rapidamente no que VAI mexer e no que NÃO VAI mexer.

Estou esperando só isso para definir o meu voto.

Para onde vamos?

Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da Terra”, de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?

Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.

É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois, se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista”, deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso…) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?

Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o.” Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha Casa, Minha Vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.

Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: “L”État c”est moi.” Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.

Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.

Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas -, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República

Quando li esta notícia não consegui conter uma risada. Mas calma, não estou tripudiando sobre a desgraça alheia. Até a guerra tem suas regras.

Eu só faço uma observação e uma pergunta.

O apagão de 2001 custou ao PSDB a eleição de 2002. Lula venceu Serra e FHC pagou caro pelos seus erros.

Alguém aí imagina Chávez deixar o povo da Venezuela fazer o mesmo com ele na próxima eleição?

Claro que não. A revolução não pode parar.

Da Veja

Chávez pede à população que pare de cantar no chuveiro e reduza banhos para 3 minutos

“Algumas pessoas cantam no chuveiro, ficam meia hora no banho. Não, meninos, três minutos é mais do que suficiente. Eu contei, três minutos, e não cheiro mal.”

Com esta declaração o presidente venezuelano, Hugo Chávez pediu esta semana à população que restrinja o tempo de seus banhos, pois há graves problemas de abastecimento de água e luz no país.

“Se vocês vão deitar no banho com o sabonete, e vocês ligam o que se chama Jacuzzi, imaginem, que tipo de comunismo é esse? Não estamos em tempos de Jacuzzi”, enfatizou.

A Venezuela sofreu vários apagões no último ano, devido ao aumento da demanda, à falta de investimentos no setor e à redução dos níveis das represas das hidrelétricas.

Em uma reunião ministerial, transmitida pela TV, Chávez anunciou medidas de economia de energia e disse que irá criar um “ministério do apagão”, contra os problemas que têm afetado a imagem da sua revolução socialista antes das eleições legislativas de 2010.

O presidente disse, ainda, que a falta de chuvas, provocada pelo fenômeno El Niño, causou redução crítica na barragem de El Guri, uma das maiores do país.

O governo cogita usar aviões para mexer nas nuvens e provocar chuvas, de acordo com Chávez, e pode publicar, em breve, um decreto proibindo as importações de equipamentos elétricos de alto gasto energético. Ele pediu, ainda, que os ministérios e estatais reduzam imediatamente em 20% o seu consumo de energia.

(Com agência Reuters)

Kennedy Alencar, jornalista da Folha, deu o “furo”: Aécio fechou acordo e será vice de Serra em 2010, acabando com a polêmica sobre, afinal de contas, quem será o candidato do PSDB às eleições de 2010. O acordo teria sido costurado pelo FHC e envolveria cláusulas engraçadas, como a de negar que tenha havido qualquer acordo, bem como de divulgá-lo só em setembro.

Acontece que, de fato, PSDB, Aécio (irado) e o próprio FHC negam qualquer acordo, e ficamos num nonsense. Piada pronta. O Reinaldo Azevedo descascou o repórter da Folha, ao seu estilo, acusando-o de estar a serviço da campanha petista, por estar desestabilizando o campo tucano. O Nassif no início endossou, mas após sondagens, nem disse sim, nem não.

O que aconteceu mesmo? Só esperando setembro…

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