A FORMIGA E A CIGARRA

Era uma vez uma formiga muito trabalhadora. Passava o dia cortando folhas, pois o inverno estava próximo.

Perto dali, porém, uma cigarra passava o dia inteiro cantando suas cantigas. A formiga, então, foi até ela.

- Bom dia, cigarra.

- Bom dia, formiga.

- Cigarra, tenho uma dúvida: quando o inverno chegar, como você vai fazer para achar comida?

- Inverno? Comida? Não sei, ainda não pensei nisso. Por enquanto só quero relaxar – suspirou a cigarra.

- Tudo bem – desistiu a formiga. Depois não diga que não avisei.

A formiga voltou ao trabalho, e a cigarra foi tirar um cochilo.

O inverno não demorou a chegar, e veio com toda a força. As formigas se recolheram ao formigueiro, onde havia calor e comida suficientes para muito tempo.

Da cigarra não se teve mais notícias.

Até o dia em que ela ganhou um milhão num reality show da TV.

VIDA DE INSETO

23/05/2009

Andei revirando meus cds antigos e acabei encontrando alguns textos e algumas idéias de textos. Este mini-conto escrevi em 2004, milhões de anos atrás. Tem até verbo no pretérito mais-que-perfeito! Embora tenha descaradamente me inspirado em Kafka (pelo menos), vou perder a timidez e postá-lo aqui. Vai do jeito que está.


VIDA DE INSETO

Naquela manhã, D. Brizabela não conseguiu dizer o necessário “bom dia” antes que o presidente da empresa passasse por ela resmungando-lhe algo que lembrava a palavra café. A secretária pareceu não se perturbar com isso, afinal já estava na função há 11 anos, e pôs-se monotonamente a preparar o capuccino do patrão.

A porta do escritório fechou-se com um desagradável barulho, mas que não incomodou o dr. Brunislau. Estava numa agitação controlada, numa excitação serena, como o dependente químico após a primeira agulhada. Somente uma coisa em sua vida o deixava assim, os negócios. Eram verdadeiramente sua vida, desde que seu pai, dr. Uósteles Techeremunga, o trouxera para junto de si e começara a prepará-lo para sucedê-lo na administração dos negócios da família.

Abriu o jornal, já engolido por sua poltrona, debaixo de um Greuze que retratava uma bucólica paisagem européia. As manchetes não traziam nada de novo, aumento do desemprego, reclamações de alguém pelo corte de gastos do governo em alguns setores et cetera. Nessa altura, porém, o dr. Brunislau Techeremunga tinha o olhar fixo no caderno econômico. Ficara subitamente de bom humor. Tomou do telefone sobre sua mesa e pediu à secretária uma ligação, além de informações detalhadas sobre a demora de seu café.

Mergulhou na poltrona novamente e foi então que sentiu um certo formigamento nos membros. Involuntariamente, levantou-se e caminhou até a janela que dava para uma vista impressionante, um amontoar-se de edifícios lembrando um imenso canavial depois do “fogo de palha”. Sentia-se mais senhor sempre que se colocava diante daquele horizonte terrível. Mas naquele momento não tinha esta impressão. Pela primeira vez, percebeu que, pouco a pouco, o sol colocava-se acima dos edifícios, indo juntar-se a uma lua parecida esquecida de que a noite acabara.

Passado este pequeno e aparente devaneio, o suave e tenaz formigamento lhe atraiu a atenção para o que estava a acontecer com seu corpo. Abriu a palma da mãe direita como quem abre um livro e foi quando se deu conta de que abrira uma patinha de inseto, no lugar da mão. Ele todo era agora um inseto, até o pensamento era de um inseto. Tinha uma certa lembrança de que fora um pisa-inseto importante alguns anos atrás, que o tempo para os insetos corre mais rápido, mas aquilo podia ter sido apenas um sonho, que insetos também têm sonhos. Foi um pensamento rápido este, pois no instante seguinte sentia-se plenamente uma barata d’água, sem qualquer reminiscência de outra espécie.

Não tendo nada mais a fazer, bateu desarmoniosamente as asas e tropegamente acabou pousando no lustre de mil cristais, verdadeiro shopping center para os insetos, e ali se sentiu bem.

Lados opostos

20/05/2009

Por Francisco

- Você não vai querer começar de novo, vai?

- Tem algum problema?

- Amor, ontem foi a mesma coisa. E anteontem também.

- Ai, não sabia que isso te incomodava tanto.

- Um dia a gente se estafa, Fernanda.

- É, nos tempos de namoro você não se estafava por causa dessas bobagens.

- Era diferente. Você era muito inexperiente. Eu tinha que te dar mais atenção.

- Você é muito cínico.

- Eu, cínico? Você é que é engraçada.

- Ok, Coutinho. Como diz mamãe: quando um não quer, dois não brigam.

- Ai. Pare de citar sua mãe.

- Foi você quem começou.

(…)

- Por que você está assim hoje?

- Assim como?

- Estranha. Procure se soltar um pouco mais.

- Procuro não ligar para o que você diz. É o princípio de todos os meus erros.

(…)

- Somos mesmo muito diferentes.

- Como você descobriu isso, Coutinho?

- Você e seus esqueminhas mentais…

- Você, com sua irresponsabilidade assumida…

- Prefiro ser irresponsável a ser previsível. É muito mais divertido.

- Ainda vai se dar mal.

- Faz parte. Espere aí… isso foi uma ameaça?

- Dá pra ficar calado?

(…)

- Faça o que for melhor pra você, Fernanda.

- Tenha certeza de que vou fazer.

- Aliás, foi isso o que você sempre fez mesmo. Ou achava que fazia.

- Adoro quando você começa o melodrama. Pena que agora é tarde demais.

- Nossa, por que toda essa agressividade agora?

- Isso ainda não foi nada.

- Não estou te reconhecendo mesmo. O que é isso?

- Anos ao teu lado, meu amor, anos. A gente aprende. Xeque-mate.

PASSATEMPOS S.A.

19/05/2009

[outra historinha, dos tempos em que eu era moralista...]

Certo dia começou a funcionar na cidade uma grande fábrica. Nunca se soube ao certo o que realmente se fabricava ali, mas uns diziam que eram relógios, pois todos na empresa só falavam de tempo, tempo, tempo…

Expedito do Nascimento era o chefe de produção e expedição da empresa. Era daquele tipo de engenheiro que detesta passar o dia em escritórios fechados rodeado de papéis. Seu negócio era ir para a fábrica e mexer, desmontar, inventar.

- Fui feito pra isso – dizia.

De fato, dr. Eugênio, o diretor, havia lhe encarregado de escrever o plano estratégico da empresa, mas até hoje estava esperando por ele.

Assim, num certo dia, dr. Eugênio veio lhe apresentar a nova funcionária da empresa, a engenheira Serena Prudente, especialista em Planejamento Estratégico. Serena se instalou no seu escritório para escrever o tal plano, de lá saindo só um mês depois trazendo com um carrinho desses de supermercado o PATETA (Plano de Ação Totalmente Estratégico, Teórico e Abstrato), contendo o planejamento da empresa para os próximos 45 anos, em detalhes. Uma obra-prima.

O plano foi aprovado por unanimidade, mas como – passados seis meses – a leitura do mesmo ainda não havia chegado nem na metade, uma nova versão resumida foi encomendada, apesar das explicações da engenheira.

Nesse intervalo, o engenheiro Expedito finalmente conseguiu terminar a elaboração do PATIFE (Plano Alternativo de Trabalho, Instantâneo, Fácil e Eficaz), contendo ao todo 6 páginas.

O PATIFE foi considerado eficiente a curto prazo, mas bastante incompleto para uma empresa da era da “globalização”…

Após a reunião, Expedito voltou ao trabalho. Havia muitos pedidos a serem finalizados, e todo tempo era pouco. Aquilo de planejamento era assunto para a Serena, pensou.

Pouco depois, ouve passos. Era ela.

- Oi.

- Oi – respondeu ele.

- Li o teu plano PATIFE. Gostei.

- Sério? – perguntou Expedito, um pouco sem jeito.

- Sério. Aliás, me desculpa se não pedi tua ajuda na elaboração do meu plano PATETA…

- Tudo bem. A propósito… me desculpa também por não ter te consultado em relação ao meu plano PATIFE. É que, tu sabes, eu estava com pressa e a produção não podia parar…

- Tudo bem, tudo bem. Acho que eles não tinham mesmo como funcionar…

Os dois riram.

Ela continuou:

- Acho que a gente vai ter que reescrever tudo.

- A gente?

Expedito e Serena não são nada parecidos e vivem discutindo o tempo todo, mas cá entre nós: o PACTO (Plano de Ação Com Todos Organizando) foi o único que funcionou até agora…

[uma historinha meiga]

- Sabe, você me lembra alguém…

- Claro, seu bobo, nós somos irmãos gêmeos.

- Irmãos o que?

- Gê-me-os! Significa, tipo assim, “quase iguais”. Por isso estamos na mesma barriga. Por isso temos o mesmo nome. Entendeu?

- Humm… acho que sim. Bom, mudando de assunto, Roberto…

- Roberta!

- Roberta, Roberto… que diferença faz? Não somos quase iguais?

- Ai ai, estou cada vez mais achando que não…

- Mas, como eu ia dizendo, está cada vez mais apertado aqui dentro, não acha?

- Acho. O espaço é muito pequeno e um de nós dois é folgado demais!

- Não vejo a hora de nascer! Que vontade de jogar bola!

- Pára de chutar a barriga da mamãe assim!

- Mas toda mãe gosta!

- Ah, é? Pois deixa ver se você também gosta!

- Aaai! Doeu, viu?

“Será que ela vai ser sempre chata assim ou só agora na gestação?” – perguntou-se Roberto em seus pensamentos – “Não entendo porque ela age desse modo. Afinal, eu não fiz nada! As pessoas são mesmo muito diferentes; até mesmo nós, que somos gêmeos… gêmeos… Espera aí: se somos gêmeos quase iguais como ela disse, tem algum problema. Ainda nem nascemos e vivemos brigando! Se somos tão parecidos e se eu não faço nada de mal para ela, por que ela faz tanta coisa que me irrita? É uma boa pergunta… Opa! Espera aí! E se ela também estiver achando que não faz nada de mal para mim e também se irrita comigo? Que coisa complicada! Bom, só sei que se continuar desse jeito a gente vai passar a vida colocando a culpa um no outro. Deus me livre viver assim! Ainda tenho a vida inteira pela frente! Alguém vai ter que ceder nessa história. Ok, pelo jeito sobrou para mim.”

- Roberta…

- Roberto, me desculpa.

- Hã…?

- Me desculpa aí pelo chute, não foi por mal, mas é que você me torra a paciência…

- Desculpar? Assim tão rápido? Vocês meninas são mesmo muito engraçadas!

- Não, não, as meninas são gente boa. Eu é que sou assim mesmo. Afinal, sou tua irmã gêmea!

- E por que toda essa mudança assim de uma hora pra outra?

- Sei lá, Roberto! Estou passando por uma fase complicada, é isso. Formação de personalidade, necessidade de atenção, essas coisas! Vai desculpar ou não?

- Fazem toda uma confusão e depois dizem “desculpa”.

- Claro, alguém aqui tem que ter a maturidade para pedir desculpas, né?

- Tá. Está desculpada.

- Prontinho, não doeu nada, viu?

- Na verdade, eu já ia te pedir desculpas também, sua boba.

- E quer que eu acredite nisso?

- Não. Quero agora é só um abração!

- Me larga! Manhêee!

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