A formiga e a cigarra revisited
26/03/2010
A FORMIGA E A CIGARRA
Era uma vez uma formiga muito trabalhadora. Passava o dia cortando folhas, pois o inverno estava próximo.
Perto dali, porém, uma cigarra passava o dia inteiro cantando suas cantigas. A formiga, então, foi até ela.
- Bom dia, cigarra.
- Bom dia, formiga.
- Cigarra, tenho uma dúvida: quando o inverno chegar, como você vai fazer para achar comida?
- Inverno? Comida? Não sei, ainda não pensei nisso. Por enquanto só quero relaxar – suspirou a cigarra.
- Tudo bem – desistiu a formiga. Depois não diga que não avisei.
A formiga voltou ao trabalho, e a cigarra foi tirar um cochilo.
O inverno não demorou a chegar, e veio com toda a força. As formigas se recolheram ao formigueiro, onde havia calor e comida suficientes para muito tempo.
Da cigarra não se teve mais notícias.
Até o dia em que ela ganhou um milhão num reality show da TV.
Lados opostos
20/05/2009
Por Francisco
- Você não vai querer começar de novo, vai?
- Tem algum problema?
- Amor, ontem foi a mesma coisa. E anteontem também.
- Ai, não sabia que isso te incomodava tanto.
- Um dia a gente se estafa, Fernanda.
- É, nos tempos de namoro você não se estafava por causa dessas bobagens.
- Era diferente. Você era muito inexperiente. Eu tinha que te dar mais atenção.
- Você é muito cínico.
- Eu, cínico? Você é que é engraçada.
- Ok, Coutinho. Como diz mamãe: quando um não quer, dois não brigam.
- Ai. Pare de citar sua mãe.
- Foi você quem começou.
(…)
- Por que você está assim hoje?
- Assim como?
- Estranha. Procure se soltar um pouco mais.
- Procuro não ligar para o que você diz. É o princípio de todos os meus erros.
(…)
- Somos mesmo muito diferentes.
- Como você descobriu isso, Coutinho?
- Você e seus esqueminhas mentais…
- Você, com sua irresponsabilidade assumida…
- Prefiro ser irresponsável a ser previsível. É muito mais divertido.
- Ainda vai se dar mal.
- Faz parte. Espere aí… isso foi uma ameaça?
- Dá pra ficar calado?
(…)
- Faça o que for melhor pra você, Fernanda.
- Tenha certeza de que vou fazer.
- Aliás, foi isso o que você sempre fez mesmo. Ou achava que fazia.
- Adoro quando você começa o melodrama. Pena que agora é tarde demais.
- Nossa, por que toda essa agressividade agora?
- Isso ainda não foi nada.
- Não estou te reconhecendo mesmo. O que é isso?
- Anos ao teu lado, meu amor, anos. A gente aprende. Xeque-mate.
PASSATEMPOS S.A.
19/05/2009
[outra historinha, dos tempos em que eu era moralista...]
Certo dia começou a funcionar na cidade uma grande fábrica. Nunca se soube ao certo o que realmente se fabricava ali, mas uns diziam que eram relógios, pois todos na empresa só falavam de tempo, tempo, tempo…
Expedito do Nascimento era o chefe de produção e expedição da empresa. Era daquele tipo de engenheiro que detesta passar o dia em escritórios fechados rodeado de papéis. Seu negócio era ir para a fábrica e mexer, desmontar, inventar.
- Fui feito pra isso – dizia.
De fato, dr. Eugênio, o diretor, havia lhe encarregado de escrever o plano estratégico da empresa, mas até hoje estava esperando por ele.
Assim, num certo dia, dr. Eugênio veio lhe apresentar a nova funcionária da empresa, a engenheira Serena Prudente, especialista em Planejamento Estratégico. Serena se instalou no seu escritório para escrever o tal plano, de lá saindo só um mês depois trazendo com um carrinho desses de supermercado o PATETA (Plano de Ação Totalmente Estratégico, Teórico e Abstrato), contendo o planejamento da empresa para os próximos 45 anos, em detalhes. Uma obra-prima.
O plano foi aprovado por unanimidade, mas como – passados seis meses – a leitura do mesmo ainda não havia chegado nem na metade, uma nova versão resumida foi encomendada, apesar das explicações da engenheira.
Nesse intervalo, o engenheiro Expedito finalmente conseguiu terminar a elaboração do PATIFE (Plano Alternativo de Trabalho, Instantâneo, Fácil e Eficaz), contendo ao todo 6 páginas.
O PATIFE foi considerado eficiente a curto prazo, mas bastante incompleto para uma empresa da era da “globalização”…
Após a reunião, Expedito voltou ao trabalho. Havia muitos pedidos a serem finalizados, e todo tempo era pouco. Aquilo de planejamento era assunto para a Serena, pensou.
Pouco depois, ouve passos. Era ela.
- Oi.
- Oi – respondeu ele.
- Li o teu plano PATIFE. Gostei.
- Sério? – perguntou Expedito, um pouco sem jeito.
- Sério. Aliás, me desculpa se não pedi tua ajuda na elaboração do meu plano PATETA…
- Tudo bem. A propósito… me desculpa também por não ter te consultado em relação ao meu plano PATIFE. É que, tu sabes, eu estava com pressa e a produção não podia parar…
- Tudo bem, tudo bem. Acho que eles não tinham mesmo como funcionar…
Os dois riram.
Ela continuou:
- Acho que a gente vai ter que reescrever tudo.
- A gente?
Expedito e Serena não são nada parecidos e vivem discutindo o tempo todo, mas cá entre nós: o PACTO (Plano de Ação Com Todos Organizando) foi o único que funcionou até agora…
TOMANDO A INICIATIVA
18/05/2009
[uma historinha meiga]
- Sabe, você me lembra alguém…
- Claro, seu bobo, nós somos irmãos gêmeos.
- Irmãos o que?
- Gê-me-os! Significa, tipo assim, “quase iguais”. Por isso estamos na mesma barriga. Por isso temos o mesmo nome. Entendeu?
- Humm… acho que sim. Bom, mudando de assunto, Roberto…
- Roberta!
- Roberta, Roberto… que diferença faz? Não somos quase iguais?
- Ai ai, estou cada vez mais achando que não…
- Mas, como eu ia dizendo, está cada vez mais apertado aqui dentro, não acha?
- Acho. O espaço é muito pequeno e um de nós dois é folgado demais!
- Não vejo a hora de nascer! Que vontade de jogar bola!
- Pára de chutar a barriga da mamãe assim!
- Mas toda mãe gosta!
- Ah, é? Pois deixa ver se você também gosta!
- Aaai! Doeu, viu?
“Será que ela vai ser sempre chata assim ou só agora na gestação?” – perguntou-se Roberto em seus pensamentos – “Não entendo porque ela age desse modo. Afinal, eu não fiz nada! As pessoas são mesmo muito diferentes; até mesmo nós, que somos gêmeos… gêmeos… Espera aí: se somos gêmeos quase iguais como ela disse, tem algum problema. Ainda nem nascemos e vivemos brigando! Se somos tão parecidos e se eu não faço nada de mal para ela, por que ela faz tanta coisa que me irrita? É uma boa pergunta… Opa! Espera aí! E se ela também estiver achando que não faz nada de mal para mim e também se irrita comigo? Que coisa complicada! Bom, só sei que se continuar desse jeito a gente vai passar a vida colocando a culpa um no outro. Deus me livre viver assim! Ainda tenho a vida inteira pela frente! Alguém vai ter que ceder nessa história. Ok, pelo jeito sobrou para mim.”
- Roberta…
- Roberto, me desculpa.
- Hã…?
- Me desculpa aí pelo chute, não foi por mal, mas é que você me torra a paciência…
- Desculpar? Assim tão rápido? Vocês meninas são mesmo muito engraçadas!
- Não, não, as meninas são gente boa. Eu é que sou assim mesmo. Afinal, sou tua irmã gêmea!
- E por que toda essa mudança assim de uma hora pra outra?
- Sei lá, Roberto! Estou passando por uma fase complicada, é isso. Formação de personalidade, necessidade de atenção, essas coisas! Vai desculpar ou não?
- Fazem toda uma confusão e depois dizem “desculpa”.
- Claro, alguém aqui tem que ter a maturidade para pedir desculpas, né?
- Tá. Está desculpada.
- Prontinho, não doeu nada, viu?
- Na verdade, eu já ia te pedir desculpas também, sua boba.
- E quer que eu acredite nisso?
- Não. Quero agora é só um abração!
- Me larga! Manhêee!

